Volta às aulas: como tornar esse momento mais tranquilo

A volta às aulas é um período de muitas mudanças: novos horários, novos professores, novos colegas e uma rotina diferente. Para crianças e adolescentes autistas, essas transformações podem ser ainda mais desafiadoras, já que a previsibilidade e a rotina são fatores importantes para o bem-estar emocional.

Por isso, a preparação para esse retorno precisa ser feita com antecedência, respeito e compreensão. Com algumas estratégias simples, é possível tornar esse momento mais seguro e menos estressante para a criança, a família e também para os professores.

Por que a volta às aulas pode ser difícil para crianças autistas?

A quebra da rotina é um dos principais fatores de desconforto. Durante as férias, a criança se acostuma a um ritmo diferente, e o retorno à escola exige uma reorganização do dia a dia. Além disso, o ambiente escolar pode ser sensorialmente intenso, com barulhos, luzes, movimentação e muitas interações sociais.

Outro ponto importante é o medo do desconhecido: uma nova sala, um novo professor ou mudanças na dinâmica escolar podem gerar ansiedade, insegurança e resistência.

Como preparar a criança antes do início das aulas

A preparação deve começar alguns dias antes do primeiro dia de aula. Conversar sobre a escola de forma positiva ajuda a reduzir a ansiedade. Mostrar fotos da escola, da sala de aula e dos professores também pode ajudar a criança a visualizar o que vai acontecer.

Histórias sociais são ótimas aliadas nesse momento. Elas explicam, de forma simples e visual, como será a rotina escolar: acordar, escovar os dentes, se arrumar, ir para a escola, assistir às aulas e voltar para casa. Simular essa rotina em casa também é uma estratégia eficaz para tornar o processo mais previsível.

Organização da rotina em casa

Ajustar os horários de sono e alimentação antes do início das aulas é fundamental. Criar um quadro de rotina visual com os horários do dia ajuda a criança a entender o que vem a seguir e reduz a ansiedade.

Preparar o material escolar junto com a criança também é uma forma de envolvê-la nesse processo. Separar mochila, estojo e uniforme pode ser transformado em uma atividade tranquila e positiva.

A importância da comunicação com a escola

O diálogo entre família e escola é essencial. É importante que os professores conheçam as necessidades da criança, suas dificuldades, seus interesses e suas estratégias de regulação emocional.

Quando houver laudos ou relatórios, eles devem ser apresentados à escola para que adaptações possam ser feitas. Alinhar expectativas e estratégias com a equipe pedagógica contribui para uma adaptação mais segura e respeitosa.

Dicas para ajudar os professores na adaptação do aluno autista

Os professores desempenham um papel fundamental nesse processo. Pequenas atitudes em sala de aula podem fazer uma grande diferença na segurança emocional e no aprendizado do aluno autista.

Algumas estratégias importantes incluem:

  • Manter uma rotina previsível: informar o aluno com antecedência sobre mudanças na programação da aula ajuda a reduzir a ansiedade e aumenta a sensação de segurança.
  • Utilizar recursos visuais: quadros de rotina, imagens, símbolos e exemplos práticos facilitam a compreensão das atividades e das instruções.
  • Comunicar-se de forma clara e objetiva: usar frases curtas, diretas e literais, evitando ironias, ambiguidades ou instruções longas e confusas.
  • Respeitar o tempo do aluno: oferecer mais tempo para responder, compreender e concluir as atividades, sem pressão excessiva.
  • Observar sinais de sobrecarga sensorial: comportamentos como agitação, isolamento ou irritabilidade podem indicar a necessidade de uma pausa ou de redução de estímulos.
  • Disponibilizar um espaço de regulação emocional: permitir que o aluno tenha acesso a um local tranquilo para se reorganizar emocionalmente quando necessário.
  • Valorizar os interesses da criança: incorporar temas de interesse do aluno nas atividades pedagógicas aumenta o engajamento e favorece a aprendizagem.
  • Evitar exposição desnecessária: não obrigar o aluno a falar em público ou participar de apresentações se isso gerar sofrimento ou insegurança.
  • Promover um ambiente de empatia e respeito: trabalhar com a turma a valorização das diferenças, estimulando atitudes inclusivas e solidárias.

Essas práticas contribuem para um ambiente escolar mais acolhedor e favorecem o desenvolvimento acadêmico, emocional e social do aluno.

Além disso, é importante:

  • Reduzir estímulos visuais excessivos: evitar excesso de cartazes, cores muito fortes ou materiais que possam causar distração ou desconforto.
  • Permitir o uso de fones abafadores de ruído, quando necessário: essa estratégia ajuda a minimizar o impacto de sons intensos do ambiente escolar.
  • Oferecer tempo ampliado para a realização das atividades: garantindo que o aluno possa concluir as tarefas sem ansiedade ou frustração.
  • Inserir pausas sensoriais ao longo do período escolar: momentos programados para descanso, movimento ou atividades de autorregulação ajudam a prevenir crises e a manter o foco.

Essas medidas ajudam a criança a se concentrar melhor e a lidar com o ambiente de forma mais confortável.

Como lidar com crises e ansiedade

É importante lembrar que crises não são birra nem falta de educação. Elas geralmente são respostas a uma sobrecarga emocional ou sensorial. Identificar sinais de estresse, como agitação, choro ou isolamento, é essencial para intervir de forma adequada.

Ter um adulto de referência na escola e um espaço tranquilo para regulação emocional pode evitar que a crise se intensifique. O mais importante é nunca punir a criança por apresentar dificuldades, mas acolher e ajudar a reorganizar suas emoções.

Socialização e inclusão

A socialização deve ser incentivada de forma gradual e respeitosa. Nem toda criança autista se sente confortável em grandes grupos ou em interações intensas. Pequenas aproximações, brincadeiras dirigidas e atividades em dupla podem facilitar esse processo.

Trabalhar a empatia com toda a turma é essencial para promover um ambiente escolar mais inclusivo. Valorizar cada avanço, por menor que pareça, fortalece a autoestima da criança.

O papel da família nesse processo

A família é a principal fonte de segurança emocional da criança. Evitar comparações, respeitar o tempo de adaptação e manter uma comunicação constante com a escola são atitudes fundamentais.

Cada criança autista é única, com suas próprias necessidades e habilidades. Por isso, não existe uma fórmula pronta: o que funciona para um pode não funcionar para outro.

O papel da família nesse processo

Se a adaptação estiver muito difícil, pode ser importante buscar apoio profissional. Psicólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos e fonoaudiólogos podem ajudar no desenvolvimento emocional, social e acadêmico da criança.

A volta às aulas não precisa ser um momento de sofrimento. Com preparação, acolhimento e parceria entre família, escola e professores, esse retorno pode se transformar em uma oportunidade de crescimento, aprendizado e inclusão para o autista.

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